Um livro completar duzentos anos
é um feito admirável. Mas um livro chegar ao bicentenário sendo lido e admirado
é um feito ainda mais digno de nota. Quantas mudanças sociais um período tão
grande pode trazer à humanidade? Sendo assim, o quão datado fica uma
determinada interpretação desta mesma sociedade sob o olhar de uma geração que
venha a nascer dois séculos depois? As diferenças entre as épocas devem ser – e
são – enormes, então como uma obra pode causar, depois de tanto tempo,
sentimentos parecidos ao de seu lançamento?
Sempre ouvi falar no modo
encantador como Jane Austen retratava a sociedade de sua época, com grande
atenção aos detalhes e invocando sempre o que cada personagem sentia no momento,
dando ao leitor um panorama completo. Mas a vez de eu ler uma obra sua ficava
cada vez mais para o futuro, até que a Irene gentilmente me convidou para
resenhar Orgulho e Preconceito, uma das obras mais conhecidas da autora.
Agradeço enormemente a oportunidade, mas não sei se serei capaz de descrever o
que senti ao lê-lo.
A época de Austen é bem diferente
da nossa, mas contraditoriamente mantém algumas similaridades. Dois séculos
atrás as pessoas eram mais polidas, ao ponto de o anfitrião de uma festa ter de
dançar com todas as jovens presentes, por questão de educação; mas quase todos mantinham ares esnobes,
preconceitos, e riam de seus vizinhos pelas costas. A diferença, aqui é que
hoje colocamos tudo pra fora, e um dedo em riste na cara de um fulano é uma
arma muito usada.
Então foi preciso que me
acostumasse com o contexto. A maior diversão que possuíam eram os bailes que
para qualquer um soa um tanto chato se os observarmos com dois séculos de
distância: danças, conversas, jogos. E uma política sem fim para visitas,
trocas de cartas e mesmo um bate-papo.
Sem muito mais o que fazer, Austen se baseia nesses encontros sociais para fazer com que seus personagens
interajam, e a quantidade destes eventos é tamanha que em alguns momentos,
principalmente no começo do texto, fiquei meio perdido, e demorei a me
encontrar, saber o que se passava, na casa de quem e com quem.
Outro ponto que me desnorteou um
pouco até que me acostumasse com eles foi o número de personagens. São vários, as
famílias são numerosas e custei notar quem era quem, a tal ponto que tive de
fazer uma lista com as famílias e uma breve explicação sobre cada um, para que
não mais me perdesse. Também acontece de a autora se referir a determinada
personagem como, por exemplo, senhorita Bennet, mas, nas minhas contas, elas
são quatro ou cinco, então você tinha de analisar melhor o contexto para ter
uma ideia de quem se tratava. No fim me adaptei, a listinha funcionou, e
recomendo, seria até bom que os editores pensassem em um tipo de glossário para
o livro.
Mas o principal do livro para mim
é a relação entre Elizabeth e Darcy. No começo aparentemente não se suportam, o
que me lembrou da famosa frase do “quem desdenha quer comprar”, mas parecem tão
antagônicos que você passa mesmo a odiar Darcy. Isso por ser Elizabeth uma das
personagens mais interessantes que já li em um livro. Ela, apesar de propensa
aos preconceitos advindos, principalmente, de primeiras impressões, é
simpática, espirituosa, sempre tem um comentário pertinente a fazer e,
principal de tudo, é bem humorada. Admiro quem possui bom humor, pessoas assim
são capazes de lidar com muito mais facilidade com as dificuldades da vida.
É uma pena não poder falar mais
sobre eles sem entregar tudo pelo que passam.
Austen vai nos guiando por uma sucessão de acontecimentos e quando tudo vai sendo explicado, os
mal-entendidos desfeitos , e acontece algo muito esperado, o leitor chega a
vibrar. Daí você para e pensa que esta
certamente é uma das razões por ele ser um livro tão lido ainda nos dias de
hoje. Os clássicos são assim chamados por uma razão. No caso de Orgulho e
Preconceito, acredito que é por Austen ter conseguido, ao mesmo tempo em que
retratava tão bem a sociedade de uma época, evocar em seus personagens
características e sentimentos que mesmo muito tempo depois continuam a falar
alto nas pessoas.
Se pudesse dar um conselho, diria
para não passarem vinte e seis anos sem ler Austen. É quase um crime.
E agradeço novamente à Irene pela
oportunidade de ler Austen. Certamente foi uma experiência única.