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Resenha do livro "Doce Manuela" de Júlio José Chiavenato - Editora Moderna

Sinopse


Manuela é menina negra e órfã, que mora com a avó e o irmão pequeno. Sustenta a casa catando ferro e papel velho nas ruas. Estuda no segundo grau porque é obstinada. Está no time de vôlei e sonha um dia ser jogadora importante. Tem apoio do professor Turco e do professor de Educação Física. Os leitores vibrarão, torcerão pela heroína, e discutirão as injustiças, a justiça, os preconceitos... E sem dúvida vão repensar e rever seus valores.

Edição: 2
Editora: Moderna
ISBN: 8516035921
Ano: 2003
Páginas: 128






Júlio José Chiavenato diz algo interessante:
"Abomino esse negócio de literatura "infanto-juvenil". Literatura é ou não é. Existem as gradações, ninguém nasceu Machado de Assis. Mas literatura é ou não é. "

Eu concordo amplamente com ele, literatura é ou não é, e Doce Manuela, um pequeno romance escrito por Chiavenato só pode ser classificado com um livro delicioso, me apaixonei por ele a primeira vista, logo na primeira linha: "Nem cravo nem canela. Pretinha." (pg. 7).


Foi amor onde chamar alguém de negro é ofensa, porque o negro está simbolicamente associado a tantas coisas não tão boas que o próprio negro não gosta de se reconhecer como tal e comumente se embranquece de várias formas de maneira que homens e mulheres de cor preferem ser morenos e morenas, mestiços, mulatos, qualquer coisa menos negros e negras um autor começar a descrever o seu personagem como pretinha e construir a partir daí um personagem incrível, maravilhoso, realmente doce é coisa para ninguém colocar defeito.


Afinal já é tempo de desconstruir essa imagem de que o negro é feio e de que ser negro é ruim, tudo bem que se pode dizer que no Brasil a essa altura do campeonato ninguém é realmente preto ou branco, azul ou vermelho, nós somos misturados demais. Mas, não posso ser hipócrita e dizer que não existem preconceitos e que não há diferença entre ter a pele negra e a pele branco, não posso fazer isso porque francamente as minhas experiências pessoais mostram que existem diferença sim, tanta que o estudo da história européia é algo comum dentro da escola e o estudo da história afro precisou ser imposto através de um lei.


Chiavenato dá com Manuela mais um passo para desconstruir no Brasil a idéia de que ser negro é ruim, se o negro tem uma história de dificuldades, trabalho, sofrimentos junto com essa história de opressão existe uma história de resistência, sobrevivência, lutas e vitórias nos mais diversos lugares da vida social... Se houve opressão houve também resistência e entre o Zumbi e o Pai João, homens e mulheres de cor viveram uma história da qual todos podemos nos orgulhar, uma história que a personagem Manuela encarna muito bem, uma história que é de todos nós.
 
Ao compor sua personagem o que Chiavenato mais faz é fugir de alguns estereótipos, Manuela é inteligente, possui um raciocínio rápido, é determinada, trabalha duro e estuda pesado todos os dias... Ela encara a vida de frente, enxergar uma oportunidade e se esforça para aproveitar essa oportunidade. Ela tem força e ternura e apesar das dificuldades que passa em sua rotina, que não são poucas, vai lutando e conquistando espaços.

Ela estuda em uma escola pública que tem uma característica peculiar, pela manhã estudam na escola os filhos da "burguesia", crianças de classe média, e a tarde as crianças da periferia. Por uma sucessão de acasos e coisas do gênero Manuela acaba indo estudar no horário da manhã, então ela se torna "a negra da manhã" (pg. 18), e ela segue estudando de maneira que "Dez anos depois, com um metro e oitenta e oito, está no segundo colegial. Já não a estranham. Só que Manuela sabe 'Eles me aceitam, tudo bem, mas sou a negra da manhã." (pg. 18). E essa menina, ao contrario do que alguns pensam não é traumatizada, afinal, nas linhas do pensamento da própria Manuela, "Pobreza não é trauma... Se morre alguém, fico triste, mas não me abalo. O que me angustia é viver como bicho. Pior que bicho, tem cachorro que... A miséria é que deprime." (pg. 8,9).

A menina é forte, perdeu a mãe, trabalha para sustentar o irmão, estuda, cuida de uma tia velha, leva a vida como pode, é orgulhosa, firme, mas também se abate e tem um ponto chave da história que a menina leva um tombo da vida e desse tombo nasce uma queda que quase leva nossa pequena heroína de todos os dias a quase desistir, mas não final das contas ela recebe a ajuda bem quista, a ajuda necessária. Ninguém consegue vencer a miséria sozinho, não existem super-humanos e não é o caso dessa heroína, ela não é uma super humana, acima do bem e do mal, se ela não é um Pai João manso e conformado, também não é uma reencarnação de Zumbi lutando com a força dos orixás acima do bem e do mal.
 
No final das contas, Doce Manuela é um livro escrito por alguém muito antenado com as discussões a cerca da história do Negro no Brasil, da História e Cultura Afro Brasileira e da própria realidade brasileira, muito bem escrito, muito bem pensado, carregado de várias discussões super interessantes, tais como: o papel da escola na vida dos sujeitos, o papel do professor, o peso do discurso jornalístico na sociedade, a importância da prática de algum esporte dentro da escola, as leis, o comportamento do poder publico e etc. tudo isso em um livrinho de 125 páginas... Fiquei tão apaixonada quanto absurdamente boba com essa história... tanto que vale um post, dois, três...

E embora o livro esteja classificado como literatura infanto-juvenil, ele realmente é LITERATURA e faz tudo que um livro tem que fazer, ele nos convida a pensar o mundo que nos cerca, a nossa realidade e o que a sustenta fazendo um convite intelectual a nos posicionarmos a tentarmos mudar, nos reinventar... A história de Manuela é a história de tantas meninas e meninos, negros e brancos, é uma história encantadora, não tem o final de novela das oito, não é uma epopéia... é apenas uma história linda, sem fins dignos de princesa da Disney e nem de heroína global, aqui não temos uma Helena.

Originalmente publicada em http://elfpandora.blogspot.com.br/2010/07/doce-manuela-uma-historia-deliciosa.html



Avaliação 5
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